Carnaval sem fantasia

Conhecia Recife, literalmente, de outros carnavais. E lá estava ele, de novo, para mais um festejo momesco. Saiu do Aeroporto Internacional de Guararapes e, sentindo o calor de 30 graus do final da tarde e aquele cheiro forte do mangue, com mistura de esgoto, dos quais se lembrava tão bem, pegou um táxi rumo ao centro da cidade, onde ficaria hospedado durante os próximos dias. Queria chegar logo, mas o trânsito não iria ajudar – se a temperatura e o odor lhe traziam recordações de suas outras visitas à capital pernambucana, aquele tráfego lento, quase parado, lhe dava a impressão de que o avião no qual passara as últimas horas, após decolar do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, dera uma volta por aí e aterrissara no mesmo lugar.

Deu-se conta de que se repetia por lá o erro fatal de sua cidade: o pouco-caso dado ao transporte público. E o resultado era aquele trânsito infernal, digno das saídas de São Paulo nas vésperas de feriado. O atencioso motorista, então, percebendo a angústia do passageiro, arriscou um caminho alternativo pela praia de Boa Viagem. “Vocês paulistanos não veem muito o mar, né?”, disse. De fato, não – aliás são poucos os espaços urbanos coletivos, alguns parques, algumas praças. Geralmente as pessoas se encontram em bares, agora com hora para fechar e com muitíssimas restrições, que minam melancolicamente a vocação boêmia de São Paulo.

Sentiu a brisa, olhou as poucas pessoas que andavam pela orla. Pensou como é bom ver o mar de verdade… Alívio imediato.

Mas, à medida em que avançava, notava a quantidade de prédios construídos na orla. Condomínios de luxo. Edifícios comerciais igualmente luxuosos. A angústia, mais uma vez. A praia virou um enfeite para aquelas janelas e varandas, pensou. O que é a praia para os moradores desses condomínios, por exemplo, que encerram entre os seus muros um mundo de lazer? O que será do contato com a rua – e com a praia?

Todas iguais

Diante dessas transformações que se evidenciavam na paisagem da cidade, ele lembrou do filme Recife frio (2009), de Kleber Mendonça Filho. O premiado curta-metragem – de ficção, logicamente – mostra a capital pernambucana gelada e triste após misteriosas mudanças climáticas – para o azar de uns, como o francês que deixa de receber hóspedes em sua pousada à beira-mar, e a sorte de outros, como o Papai Noel profissional que já estava cansado de, metido no tradicional figurino do bom velhinho, se desidratar nos Natais tropicais do Recife.


Recife Frio, de Kleber Mendonça Filho

Não, ainda não há pinguins nas praias da cidade. Mas muita gente já se incomoda com algumas das obras que vêm sendo planejadas por lá – como o complexo empresarial, residencial e hoteleiro no Cais José Estelita (onde estão reunidos antigos galpões, estações ferroviárias e a segunda linha de trem mais antiga do Brasil).

Com questões como essa na cabeça, ele procurou, no dia seguinte à sua chegada, a urbanista Norma Lacerda. E ela não o tranquilizou: disse que estava assustada, que nunca havia vivenciado uma situação tão desastrosa em termos de ocupação do espaço urbano. Entre 2001 e 2003, durante a gestão do ex-prefeito João Paulo (PT), ela assumiu a posição de diretora-geral de urbanismo da Prefeitura do Recife. E abandonou o cargo depois que o projeto da construção das chamadas Torres Gêmeas, dois “espigões” residenciais que arranham o céu no bairro de São José – área que deveria ser preservada –, foi aprovado. “O Brasil copiou o urbanismo dos Estados Unidos de maneira equivocada”, contou. “Em Nova York, por exemplo, apenas uma área de Manhattan é verticalizada. Não me oponho a esse processo, mas sim ao jeito de que ele é feito. Não podemos enterrar o passado e deixar tudo de forma homogênea: as cidades ficariam todas iguais.”

Onde o mar bebe o Capibaribe…

Além de provocar o afastamento da até então diretora-geral de urbanismo da Prefeitura do Recife por não concordar com aquela situação, a construção dos tais arranha-céus ainda serviu como ponto de partida para o Projeto Torres Gêmeas (projetotorresgemeas.wordpress.com) – que gerou um filme coletivo focado nas políticas de expansão urbana e de desenvolvimento da cidade. Qualquer pessoa poderia dar a sua contribuição à obra enviando um material – em filme, vídeo, foto, som, desenho, texto… – que dialogasse, direta ou indiretamente, com a questão inicial.

Filme coletivo Projeto Torres Gêmeas

Sob indicação de Norma, o nosso paulistano em visita ao Recife também ficou sabendo do projeto Vurto (vurto.com.br), que, lançado em 2011 pelos documentaristas pernambucanos Marcelo Pedroso e Felipe Peres Calheiros, reúne em seu site uma série de vídeos sobre assuntos como a verticalização da cidade e a construção da Via Mangue (Concreto Armado) – corredor expresso para carros que está sendo construído na Zona Sul do Recife –, entre outros.

Concreto Armado, de Felipe Peres Calheiros

Não faltam iniciativas como essas. Num dos vídeos é abordada a construção de um shopping-center, que será o maior do Nordeste, no antigo terreno da fábrica da Bacardi, onde o rio se encontra com o mar. O projeto é do empresário João Carlos Paz Mendonça, num terreno de mais de 200 mil metros quadrados, ao lado de uma favela sobre o rio Capibaribe e um conjunto habitacional de baixa renda.

Rio-Mar Shopping, de Marcelo Pedroso

Outro vídeo mostra o depoimento de um empresário da construção civil justificando a verticalização acelerada do Recife, onde argumenta que, instintivamente, as pessoas procuram lugares altos com vistas para o mar e para o verde. Segundo ele, esse processo é natural, já que construções modernas devem substituir as antigas.

Recife MD, de Marcelo Pedroso

“Muitos artistas denunciam, fazem trabalhos com o objetivo de gerar um debate”, disse Norma. “Mas a repercussão ainda é pequena”, continuou, “principalmente por falta de mobilização da sociedade”.

Ocupe Estelita

Enquanto esse texto era escrito, um movimento de mobilização surgia nas redes sociais e ganhava as ruas do Recife. O grupo Direitos Urbanos, com quase 4,3 mil integrantes no Facebook (https://www.facebook.com/groups/233491833415070/), promoveu o #OcupeEstelita em meados de abril para proteger o Cais José Estelita, complexo que abriga antigos galpões, estações ferroviárias e a segunda linha de trem mais antiga do Brasil.

A mobilização foi criada de forma descentralizada, sem “líderes”, e defende alternativas mais inteligentes e sustentáveis para região, como a criação de parques, centros culturais e outras atividades para que sejam utilizadas por toda população, ao invés da verticalização que beneficiaria poucos, aqueles com poder aquisitivo maior. A área do cais é de extrema beleza, na Bacia do Pina, onde é possível avistar o rio e o mar e liga importantes pontos da cidade, o Recife Antigo e a Praia de Boa Viagem. Ao todo, o evento reuniu milhares de pessoas e promoveu diversas atividades.
O projeto “Novo Recife”, batizado por um grupo de empreiteiras que comprou o terreno num leilão com possíveis irregularidades em 2008 e pretende transformar o local num grande complexo vertical, está em fase de análise na prefeitura, onde, segundo os organizadores do movimento Ocupe Estelita, não existe um posicionamento firme, apesar de que qualquer intervenção esteja suspensa pelo Ministério Público até que órgãos de preservação responsáveis, como o IPHAN e FUNDARPE, se manifestem oficialmente. Caso essas instâncias sejam ultrapassadas, serão exigidos tanto pelo MP quanto pela população os relatórios de impacto ambiental e de vizinhança no processo de licenciamento.


Cineasta Cláudio Assis entrega manifesto do movimento Direitos Urbanos ao governador Eduardo Campos

Vale lembrar também que há 20 anos, quando manguezais e rios de Suape foram aterrados, o ecossistema em uma faixa litorânea do Recife e região foi destruída. Além de impactar colônias de pescadores e prejudicar o turismo, as praias se tornaram faixas de ataques de tubarões, prejudicando o uso do mar e da praia como um espaço público da população.

Novos tempos

As ilustrações apresentadas nesse texto são do artista plástico Cavani Rosas, que, já em 1986, fez uma série de gravuras em bico de pena para alertar sobre o crescimento urbano nos bairros de Casa Forte e Poço da Panela. Com Norma Lacerda, ele integrou os primeiros movimentos de preservação dos casarios recifenses. Hoje está mais ameno no discurso e apenas registra a velha arquitetura da cidade, pois acredita que não adianta ficar preocupado, já que os “novos tempos” irão, de qualquer forma, transformar tudo. “Qualquer movimentação que possa existir para abrir o debate é interessante”, comenta ele. “Mas esse dito desenvolvimento é rápido demais, e é difícil intervir de acordo com o que pensamos. O debate é profundo e a questão é poética”, completa.

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O sermão poético de Daniel Lima*

Aos quase 96 anos, lúcido e sereno, padre pernambucano ganha importante prêmio e surge como um dos grandes nomes da literatura brasileira (p/ Itaú Cultural | Fotos: Beto Figueiroa)

– Eu não tenho nada o que dizer que valha a pena!

Os poucos presentes em tom de devoção discordaram prontamente do enigmático poeta-padre Daniel Lima, como num mantra:
– Tem sim, claro que tem!

Ele estava sentado numa poltrona do apartamento onde mora, no bairro da Torre, no Recife (PE), rodeado de alguns amigos e parentes. Parecia um pouco cansado, indisposto, talvez fosse o calor da tarde de quinta-feira, pós-Carnaval. Realmente ele tem muito a dizer, mas preferiu enclausurar a sua arte, nunca havia sido publicado. Saiu do ineditismo graças sua amiga e ex-aluna, professora e escritora, Luzila Gonçalves Ferreira, que lhe “roubou” quatro cadernos, reuniu-os num único livro e publicou pela Companhia Editora de Pernambuco (CEPE). O livro Poemas acabou ganhando o prêmio da Fundação Biblioteca Nacional como o melhor de 2011, categoria poesia, e notoriedade nacional. O júri escolheu sua obra por unanimidade ao desbancar nomes como Ferreira Gullar e Affonso Romano de Sant’Ana. “Ninguém o conhecia e a obra dele é considerada uma descoberta da poesia brasileira”, diz Antonio José Jardim, um dos jurados e professor de literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Amiga de Daniel Lima há 50 anos que hoje o acolhe em sua casa, a ex-bibliotecária Célia Veloso, responsável por datilografar e encadernar os manuscritos do padre, disse ser impossível calcular o número exato de obras dele. “Ele passou a vida escrevendo, muita coisa se perdeu, se estragou com o tempo”. Ela conta que, quando o amigo era mais jovem, editoras lhe propuseram publicar, mas ele sempre rejeitou. “A poesia para ele é um ato de intimidade e fica espantado quando vê a repercussão”.

Padre Daniel nasceu em Timbaúba, Zona da Mata de Pernambuco. Aos quase 96 anos, está lúcido, sereno, às vezes esboça uma pequena agressividade, mas é puro deboche. Gargalha após as piadas que solta em meio algum assunto sério que chega a engasgar. Esboça um sorriso tímido e infantil muitas vezes, mas parece que já está se acostumando com o assédio depois do sucesso tardio. Apesar das dificuldades em se comunicar, é raro ao expressar seu raciocínio e nos prega peças. Ledo engano quando imaginamos que ele se perdeu no meio de suas ideias. Usa metáforas e conclui o pensamento com clarividência. Chega parecer uma entidade, rodeado de devotos, talvez tenha errado a escolha da religião. Ele faz todo mundo se sentir especial e em estado lisérgico com suas palavras:

– Vocês vieram aqui para ouvir sermão?
Gargalha mais uma vez para despertar do transe os presentes. Seus pensamentos voam soltos e suas palavras criam asas, vão longe… Nada premeditado, tudo espontâneo. Ele escreve desde os 18 anos, época em que frequentava os seminários da sua terra natal e João Pessoa (PB). Enxerga a poesia como seu momento de intimidade, nunca gostou de se despir para qualquer um, apenas alguns poucos amigos tiveram o privilégio de conhecer sua obra antes do sucesso. Ele distribuía alguns originais com uma dedicatória “aos amigos confiáveis, para empréstimo, com espera de devolução”. Foi sempre uma espécie de lenda nas conversas dos bares cools e confrarias literárias do Recife. Nunca gostou dos intelectuais, se refere a eles como “posudos”. Em homenagem, dedicou um poema: o intelectual é um urubu/ que se julga vestido./ mas que está nu,/ com pena de pavão/ enfiada no cu.

– Daniel, quando o senhor escrevia seus poemas era para quem mesmo?
– Era pra mim. Eu escrevi para mim mesmo, já que não tinha abertura para dizer o que eu queria.
Luzilá complementa:
– As palavras foram jogadas para o ar, se pudesse sempre escrever, seria mais eficaz.
– Praticamente meu livro não é nada. Não sou importante, não quero ficar acima das pessoas. Minha obra não passou de uma obra. Estou me sentindo mais do que eu! Fico arrasado pela beleza que consegui apanhar na palavra que é tão pobre. O que escrevi me comove, passou de mim, transbordou-se do meu pensamento e da minha forma de configurar os objetos.
– E fazer poesia ajuda a passar o tempo? – pergunto.
– Ajuda, qualquer coisa ajuda. Meu negócio é viver, esse negócio de poesia é só para passar o tempo.
– Mas o senhor sente que cumpriu sua missão?
– Não penso nisso. Vou morrer de tempo, me comove a belezas das coisas.

De fato, Daniel se comove facilmente. Cantarola suavemente um trecho do poema de Casemiro de Abreu, Meus oito anos: Oh! que saudades que tenho /Da aurora da minha vida,/Da minha infância querida,/Que os anos não trazem mais! Por vezes, demonstra certo arrependimento:
– Eu fui muito do contra (e ainda é) por ter a capacidade de julgar os outros. Eu só tenho o que dizer contra o que quis dizer agora, mas aí eu vou ser um sujeito mal educado.

O padre do povo

O padre Daniel tem pelo menos 27 livros inéditos, de poesia ou assuntos referentes à ética, à estética e à política. Ele passou a vida escrevendo. Apesar de padre, nunca foi pároco, não se ligou a nenhuma ordem, apenas foi professor em Nazaré da Mata e ensinou filosofia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ligado a setores progressistas da Igreja, atuou nas Ligas Camponesas de Francisco Julião e junto aos sem terra. Trabalhou com Paulo Freire na revista Estudos Universitários e protegeu muitos estudantes na ditadura militar. Sumiu logo depois do Golpe de 1964 e foi encontrado alguns dias depois escondido num sótão com recortes de jornal espalhados pelo chão. “Fazia um estudo de caso para entender por que as Ligas não deram certo”, conta Luzilá. “Chegou a ser interrogado pela repressão, mas deu uma aula de estética aos milicos”, relembra. Foi liberado em seguida, sem sofrer nenhuma tortura ou constrangimento. É também um grande admirador de Dom Helder Câmara – arcebispo emérito de Olinda e Recife e grande defensor dos direitos humanos durante o regime militar brasileiro – com quem teve amizade.

– Gostava dele quando era ativo e agressivo, às vezes era manso demais. Faltava mais atitude. Ele quando agia era muito melhor do que quando falava. Ele deveria criticar mais a posição da Igreja (durante o Golpe). Eu protestava contra aquela situação de tolerância em relação ao nada. Sozinho, subitamente sozinho. Dói!

As ideias do padre Daniel Lima não agradavam aos setores mais conservadores da Igreja. Após ameaçar denunciar como reles plagiário o seu superior, arcebispo de Olinda e Recife, Dom Antônio de Almeida Moraes Júnior, ao qual chamava pela alcunha de “Toinho Coca-Cola”, foi afastado da paróquia de Nazaré da Mata. Apesar disso, diz não guardar mágoas da Igreja, mas sente falta de uma posição de combate, ante o renascimento e o novo tempo da história.

– A Igreja não é pioneira em nada, pena! Está toda desencaminhada é um fedor geral. Deveria assumir novas posições, é um fedor só.

Libertário, o padre Daniel Lima é mais um notável talento da poética pernambucana e brasileira que surge, aos nossos olhos, tardiamente. Era um vivedor, boêmio, apesar da espiritualidade laica, utilizava-se dos prazeres mundanos. Gostava de sair pelas ruas e varar a madrugada na companhia de amigos, regado a muito vinho, para discutir filosofia, estética e muitas outras coisas.

– Eu ainda sinto vontade de chorar. Meu lado ruim não deixa.

*Texto escrito dias antes da morte do padre poeta Daniel Lima, que deixou esse mundo no último sábado (14/04)