O sermão poético de Daniel Lima*

Aos quase 96 anos, lúcido e sereno, padre pernambucano ganha importante prêmio e surge como um dos grandes nomes da literatura brasileira (p/ Itaú Cultural | Fotos: Beto Figueiroa)

– Eu não tenho nada o que dizer que valha a pena!

Os poucos presentes em tom de devoção discordaram prontamente do enigmático poeta-padre Daniel Lima, como num mantra:
– Tem sim, claro que tem!

Ele estava sentado numa poltrona do apartamento onde mora, no bairro da Torre, no Recife (PE), rodeado de alguns amigos e parentes. Parecia um pouco cansado, indisposto, talvez fosse o calor da tarde de quinta-feira, pós-Carnaval. Realmente ele tem muito a dizer, mas preferiu enclausurar a sua arte, nunca havia sido publicado. Saiu do ineditismo graças sua amiga e ex-aluna, professora e escritora, Luzila Gonçalves Ferreira, que lhe “roubou” quatro cadernos, reuniu-os num único livro e publicou pela Companhia Editora de Pernambuco (CEPE). O livro Poemas acabou ganhando o prêmio da Fundação Biblioteca Nacional como o melhor de 2011, categoria poesia, e notoriedade nacional. O júri escolheu sua obra por unanimidade ao desbancar nomes como Ferreira Gullar e Affonso Romano de Sant’Ana. “Ninguém o conhecia e a obra dele é considerada uma descoberta da poesia brasileira”, diz Antonio José Jardim, um dos jurados e professor de literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Amiga de Daniel Lima há 50 anos que hoje o acolhe em sua casa, a ex-bibliotecária Célia Veloso, responsável por datilografar e encadernar os manuscritos do padre, disse ser impossível calcular o número exato de obras dele. “Ele passou a vida escrevendo, muita coisa se perdeu, se estragou com o tempo”. Ela conta que, quando o amigo era mais jovem, editoras lhe propuseram publicar, mas ele sempre rejeitou. “A poesia para ele é um ato de intimidade e fica espantado quando vê a repercussão”.

Padre Daniel nasceu em Timbaúba, Zona da Mata de Pernambuco. Aos quase 96 anos, está lúcido, sereno, às vezes esboça uma pequena agressividade, mas é puro deboche. Gargalha após as piadas que solta em meio algum assunto sério que chega a engasgar. Esboça um sorriso tímido e infantil muitas vezes, mas parece que já está se acostumando com o assédio depois do sucesso tardio. Apesar das dificuldades em se comunicar, é raro ao expressar seu raciocínio e nos prega peças. Ledo engano quando imaginamos que ele se perdeu no meio de suas ideias. Usa metáforas e conclui o pensamento com clarividência. Chega parecer uma entidade, rodeado de devotos, talvez tenha errado a escolha da religião. Ele faz todo mundo se sentir especial e em estado lisérgico com suas palavras:

– Vocês vieram aqui para ouvir sermão?
Gargalha mais uma vez para despertar do transe os presentes. Seus pensamentos voam soltos e suas palavras criam asas, vão longe… Nada premeditado, tudo espontâneo. Ele escreve desde os 18 anos, época em que frequentava os seminários da sua terra natal e João Pessoa (PB). Enxerga a poesia como seu momento de intimidade, nunca gostou de se despir para qualquer um, apenas alguns poucos amigos tiveram o privilégio de conhecer sua obra antes do sucesso. Ele distribuía alguns originais com uma dedicatória “aos amigos confiáveis, para empréstimo, com espera de devolução”. Foi sempre uma espécie de lenda nas conversas dos bares cools e confrarias literárias do Recife. Nunca gostou dos intelectuais, se refere a eles como “posudos”. Em homenagem, dedicou um poema: o intelectual é um urubu/ que se julga vestido./ mas que está nu,/ com pena de pavão/ enfiada no cu.

– Daniel, quando o senhor escrevia seus poemas era para quem mesmo?
– Era pra mim. Eu escrevi para mim mesmo, já que não tinha abertura para dizer o que eu queria.
Luzilá complementa:
– As palavras foram jogadas para o ar, se pudesse sempre escrever, seria mais eficaz.
– Praticamente meu livro não é nada. Não sou importante, não quero ficar acima das pessoas. Minha obra não passou de uma obra. Estou me sentindo mais do que eu! Fico arrasado pela beleza que consegui apanhar na palavra que é tão pobre. O que escrevi me comove, passou de mim, transbordou-se do meu pensamento e da minha forma de configurar os objetos.
– E fazer poesia ajuda a passar o tempo? – pergunto.
– Ajuda, qualquer coisa ajuda. Meu negócio é viver, esse negócio de poesia é só para passar o tempo.
– Mas o senhor sente que cumpriu sua missão?
– Não penso nisso. Vou morrer de tempo, me comove a belezas das coisas.

De fato, Daniel se comove facilmente. Cantarola suavemente um trecho do poema de Casemiro de Abreu, Meus oito anos: Oh! que saudades que tenho /Da aurora da minha vida,/Da minha infância querida,/Que os anos não trazem mais! Por vezes, demonstra certo arrependimento:
– Eu fui muito do contra (e ainda é) por ter a capacidade de julgar os outros. Eu só tenho o que dizer contra o que quis dizer agora, mas aí eu vou ser um sujeito mal educado.

O padre do povo

O padre Daniel tem pelo menos 27 livros inéditos, de poesia ou assuntos referentes à ética, à estética e à política. Ele passou a vida escrevendo. Apesar de padre, nunca foi pároco, não se ligou a nenhuma ordem, apenas foi professor em Nazaré da Mata e ensinou filosofia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ligado a setores progressistas da Igreja, atuou nas Ligas Camponesas de Francisco Julião e junto aos sem terra. Trabalhou com Paulo Freire na revista Estudos Universitários e protegeu muitos estudantes na ditadura militar. Sumiu logo depois do Golpe de 1964 e foi encontrado alguns dias depois escondido num sótão com recortes de jornal espalhados pelo chão. “Fazia um estudo de caso para entender por que as Ligas não deram certo”, conta Luzilá. “Chegou a ser interrogado pela repressão, mas deu uma aula de estética aos milicos”, relembra. Foi liberado em seguida, sem sofrer nenhuma tortura ou constrangimento. É também um grande admirador de Dom Helder Câmara – arcebispo emérito de Olinda e Recife e grande defensor dos direitos humanos durante o regime militar brasileiro – com quem teve amizade.

– Gostava dele quando era ativo e agressivo, às vezes era manso demais. Faltava mais atitude. Ele quando agia era muito melhor do que quando falava. Ele deveria criticar mais a posição da Igreja (durante o Golpe). Eu protestava contra aquela situação de tolerância em relação ao nada. Sozinho, subitamente sozinho. Dói!

As ideias do padre Daniel Lima não agradavam aos setores mais conservadores da Igreja. Após ameaçar denunciar como reles plagiário o seu superior, arcebispo de Olinda e Recife, Dom Antônio de Almeida Moraes Júnior, ao qual chamava pela alcunha de “Toinho Coca-Cola”, foi afastado da paróquia de Nazaré da Mata. Apesar disso, diz não guardar mágoas da Igreja, mas sente falta de uma posição de combate, ante o renascimento e o novo tempo da história.

– A Igreja não é pioneira em nada, pena! Está toda desencaminhada é um fedor geral. Deveria assumir novas posições, é um fedor só.

Libertário, o padre Daniel Lima é mais um notável talento da poética pernambucana e brasileira que surge, aos nossos olhos, tardiamente. Era um vivedor, boêmio, apesar da espiritualidade laica, utilizava-se dos prazeres mundanos. Gostava de sair pelas ruas e varar a madrugada na companhia de amigos, regado a muito vinho, para discutir filosofia, estética e muitas outras coisas.

– Eu ainda sinto vontade de chorar. Meu lado ruim não deixa.

*Texto escrito dias antes da morte do padre poeta Daniel Lima, que deixou esse mundo no último sábado (14/04)