O enigma de Herzog

Quando conheci a história do homem que nunca tinha tido contato com seres humanos, apenas com um cavalo e, sem nenhuma explicação, é apresentado para sociedade do século 19, me perguntei se se tratava de fábula ou era real. Curioso, resolvi explorar o universo de Werner Herzog, pouco acessível na época, disponível apenas em cineclubes e locadoras mais engajadas. O filme mencionado acima, talvez um dos mais conhecidos do diretor alemão, se chama o Enigma de Kaspar Hauser, que tive oportunidade de ver logo no primeiro ano do curso de jornalismo, em 1996, durante uma aula de sociologia.

Essa afeição pelo homem primitivo e sua relação com animais, segundo o próprio diretor, é marca de muitas das suas produções. Veio logo na infância, quando teve acesso a um livro de paleontologia. “Quando criança tinha fascinação por pinturas rupestres. Vi um livro de um cavalo nas cavernas de Chauvet, no sul da França, pintado há 15 mil anos. Juntei dinheiro para comprar o livro e, bem mais tarde, usei como argumento para poder realizar um filme (novo documentário gravado em 3D, “Cave of forgotten dreams”), já que há pelo menos 25 anos o acesso ao sítio é restrito”. A conversa com o diretor foi durante o 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural, no Sesc Vila Mariana, que começou nesta terça-feira (17/05).

Apesar de cético em relação ao 3D, o documentário pedia tecnologia. O filme registra as pinturas rupestres da caverna francesa. “As irregularidades das paredes eram usadas como parte das pinturas. Por isso a importância do registro em 3D”, conta. “Meus olhos veem duas dimensões, porque não é importante ver três, o cérebro exclui certas coisas. Não tenho nada contra os efeitos, mas como público de cinema, quero uma história que só existe dentro do coração de quem vê”.

Segundo ele, o fascínio pelo primitivismo o faz o melhor diretor de animais do cinema. “Ninguém dirige animais como eu”, conta sorrindo. “Não temos noção de como as pessoas, há 30 mil anos, enxergavam os animais, muitos deles extintos. Os homens faziam parte dessa paisagem. Isso, para mim, faz sentido de uma maneira poética, animais sempre têm a ver com fantasias selvagens”.

Olhos para a morte

Autor de longas como “O homem urso”, que acompanha os últimos momentos do explorador Timothy Treadwell antes de ele ser devorado por um urso pardo, Herzog volta a tratar da morte: em agosto ele termina seu próximo trabalho, uma série de documentários para TV intitulada “Death row”.

Os filmes foram gravados no corredor da morte de uma penitenciária no Texas, onde prisioneiros aguardam o dia de sua execução. “Fico fascinado pelo fato de não sabermos quando ou como vamos morrer, enquanto essas pessoas sabem. É uma morte protocolar. Acho que nenhum estado deva ter a autoridade para retirar a vida de um indivíduo.”

Glauber

Vale um registro também, já que o homenageado do congresso é o diretor baiano, morto em 1981, Glauber Rocha. Segundo o diretor, o cineasta brasileiro foi um daqueles capazes de produzir um “cinema que ilumina” e o comparou ao jogador Mané Garrincha, por quem se diz “fascinado”. “Ele resume a alma do brasileiro”, completa.