Hasta siempre, Comandante!

Quando os mais de mil integrantes do Congresso cubano ovacionavam Fidel Castro, 84, durante aparição surpresa nas comemorações dos 50 anos da invasão da Baía dos Porcos – tentativa fracassada dos Estados Unidos de derrubar o próprio Fidel – nesta terça-feira (19 de abril), não imaginavam que mais um capítulo da história do país socialista estava sendo escrito: Castro se afastava definitivamente do comando do partido e anunciava sua aposentadoria. Raul Castro continuará comandando o país como primeiro-secretário do Partido Comunista e presidente de Cuba. Fidel passa ser um simples delegado, com direito a voto.

Pôr-do-sol em Havana, janeiro de 2009 (arquivo pessoal)

Desde a entrada triunfal do líder cubano em Havana durante a Revolução Cubana, em janeiro de 1959, ao lado do próprio Raul, Camilo Cienfuegos, Che Guevara, entre outros, Fidel Castro vive uma conturbada e controversa história, cheia de erros e, principalmente, acertos.

Ao mesmo tempo em que liderou a criação de um dos melhores sistemas de saúde do mundo (e melhor do continente americano), uma educação ampla e universal (menos de 1% de analfabetismo) e o desenvolvimento de atletas do primeiro escalão mundial, perseguiu opositores, artistas e jornalista. Protagonizou uma quase eminente e improvável guerra nuclear, além de ver também seu país, graças ao embargo proposto pelos próprios Estados Unidos, se isolar do resto do mundo.

Foi um golpe duro para o processo revolucionário. Mas a ilha sobrevive e mudanças acontecem, embora que ocorram a passos curtos. Mais de 300 reformas foram aprovadas, principalmente na área econômica. Os cubanos vão poder comprar e vender seus imóveis e abrir negócios. O subsídio dos alimentos será abolido e a produção em fazendas particulares será incentivada.

Mas a sociedade cubana não vai se abrir para o capitalismo. Medo de uma nova invasão dos EUA? Pode ser… Numa recente viagem que fiz à ilha, fui hospedado por um castrista convicto, que se dizia assim por não concordar com o modelo comunista e tampouco com o capitalista. Astrofísico aposentado, foi professor em Angola, e tem atualmente permissão do governo cubano para receber turistas estrangeiros. Ele teme a descaracterização cultural do seu país influenciada por costumes consumistas. “Eu tenho medo que o fast food acabe com os paladares (restaurantes tradicionais que vendem pratos típicos e são o ganha pão de boa parte da população)”, dizia ele. “Estamos a 150 quilômetros dos ianques e somos uma pedra no sapato deles”.

Concordo com ele, principalmente por causa de todo romantismo que gira em torno de Cuba e da revolução socialista, mas posso viajar e comprar pra onde e o que quiser (desde que meu dinheiro permita), principalmente para lá e NÃO quero ver os Arcos Dourados no Malecón Habanero.

Fica a dica!

Memória do Subdesenvolvimento, do director Tomas Gutierrez Alea, um dos filmes mais importantes do cinema cubano.

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Egito em transe!


Revolução. Uma das definições sobre a palavra no dicionário: 8. Reforma, transformação, mudança completa. Atenção para o último termo, mudança completa. A revolução só pode ser considerada completa se o processo de ruptura ocorrer de forma integral e alterações sociais, políticas, econômicas e culturais sejam promovidas.

A coluna foi criada para falar de assuntos panamericanos, mas eu não poderia me omitir e ficar calado diante de um dos maiores acontecimentos do novo século: a revolução no Egito. Então, resolvi destacar dois fatos que marcaram o século 20. A Revolução dos Cravos (em Portugal, que não é americano, mas muito latino, em 1974) e a Revolução Mexicana (1911).

A primeira, muito bem retratada no cinema pelo filme Capitães de Abril (Maria de Medeiros, 2000), derrubou o regime salazarista em Portugal, em 1974, para estabelecer as liberdades democráticas no país. O regime ditatorial, estabelecido em Portugal em 1932, foi conduzido com mãos de ferro por Antônio de Oliveira Salazar, inspirado pelo fascismo italiano.

Porém, o grande erro dos Capitães de Abril foi entregar o comando da nação para o general António de Spínola que, como outros militares, teve um papel determinante nesse período. Durante o PREC (Período Revolucionários em Curso), as facções de direita e a Igreja Católica receavam uma evolução mais radical do processo político iniciado com a Revolução dos Cravos e atuaram para impedir. Portugal passou por um período conturbado durante dois anos, marcado pela luta e perseguição politica entre facções, que só terminaria com a Constituição Portuguesa, em abril de 1976.

Talvez tenha faltado um líder para tomar as rédeas da história em Portugal, como Cuba encontrou em Fidel Castro e que não faltou no México, pelo contrário, muitos, só que com pensamentos diferentes. Após depor o ditador Porfírio Díaz, que estava há 30 anos no poder, em 1911, o México viveu 20 anos de luta pelo controle do governo. Este período é considerado parte da Revolução Mexicana embora possa também ser visto como uma guerra civil. Muitos foram assassinados, entre eles, os presidentes Francisco Madero (1911), Venustiano Carranza (1920), além dos líderes revolucionários Emiliano Zapata (1919) e Pancho Villa (1923).

Finalizado esse período de turbulência e com o objetivo de reestabelecer a ordem no México, foi criado o PRI (Partido Revolucionário Institucional), que por mais de 70 governou o país. Sua política neoliberal, além de perseguir oponentes e jornalistas, tornou o México um dos países com o maior abismo social e econômico do mundo. Para muitos, a fundação do partido marcou o fim da Revolução Mexicana.

Mas quem será esse líder que irá conduzir às transformações necessárias no Egito? Pelo que vimos até agora, só apareceram oportunistas.

Acesse o blog: leocalvano.wordpress.com