Pronta para criar

Centro Cultural Tacheles, ocupação artística em antigo bairro da Berlim Oriental

Mais do que um espaço de criação e pesquisa, as casas artísticas são um ponto de encontro das mais variadas áreas para produção, troca de experiência, interação e coletividade. Provavelmente a mais conhecida delas e uma das percussoras desse movimento foi a Factory, ateliê e casa do artista pop norte-americano Andy Warhol, criada em meados dos anos 1960, em Nova York. Artistas, curiosos e todo tipo de louco povoavam o espaço. Em comum, tinham uma atitude de provocação e aversão aos padrões e convenções. Tudo girava em torno de Warhol e nada saía daquelas paredes sem sua aprovação.

A Factory era uma versão ultramoderna de um ateliê renascentista, onde artistas aprendiam com o mestre. Muitos dos trabalhos de Warhol foram executados pelos residentes, como os retratos de Judy Garland, Mick Jagger, Muhammad Ali e Pelé. Warhol fotografava com a sua inseparável Polaroid para depois trabalhar os retratos. O espaço servia também para integrar. Foi lá que os membros da banda The Velvet Underground, de Lou Reed, conheceram um de seus grandes ícones, a cantora alemã Nico.

A Factory inspirou outros centros de criação mundo afora, como a Fabrica [fabrica.it], o laboratório de ideias do grupo Benetton, em Treviso (Itália). A escola experimental incentiva pesquisas e o desenvolvimento de jovens artistas, colocando-os em contato com grandes nomes das artes. Não há professores, nem aulas, mas há prazo de entrega e muito trabalho.

O espaço funciona numa antiga vila, do século XVIII. O nome foi inspirado na Factory de Warhol. Os jovens moram de graça, almoçam na Fabrica, ganham mesada e passagem de ida e volta para a terra natal. A ideia é que nada impeça a criatividade de correr solta. Para ser escolhido, é necessário mandar um portfólio.

Leia a matéria completa que fiz para Revista Continuum, do Itaú Cultural

"Mao" de Andy Warhol na Gallery's Museum für Gegenwart, Berlim (arquivo pessoal)


Mãos à obra – criação colaborativa

Idealizado por Aaron Klobin, o Johnny Cash Project recebia desenhos que formariam uma sequência com os demais, gerando um videoclipe para “Ain’t no Grave”

Uma pessoa resolve usar broca de dentista para abrir um buraco no próprio crânio e assim expandir a consciência, em plena praça pública. Outro inventa a Igreja da Dependência Consciente da Nicotina, onde centenas de fiéis entoam o mantra “cof, cof, cof”, e trava uma guerra contra as indústrias de cigarro. As tradicionais estátuas de Amsterdã são pintadas de branco por vários cidadãos, sem motivo aparente. Um indivíduo tem a ideia de espalhar bicicletas brancas por uma cidade, à disposição de quem queira usar, como forma de protesto contra a poluição e o trânsito caótico. A produção, a mobilização e a divulgação de dezenas de eventos como esses poderiam ter sido feitas com a ajuda da internet e das redes sociais nos dias de hoje. Mas como se trata de fatos ocorridos há pelo menos 50 anos, na capital holandesa, esse trabalho foi feito de forma “analógica” e com muito sucesso, graças ao poder de envolvimento dos participantes.

Avós do flash mob [movimento que convoca seguidores por meio de determinada mídia a realizar uma ação coletiva pública geralmente ligada a uma causa] e de tudo o que se entende por produção colaborativa atualmente, as pessoas cujas ações foram descritas acima fizeram parte do Provos, grupo cultural anarquista, marco do nascimento da contracultura, que agitou a Holanda na década de 1960 e influenciou estéticas fundamentais como a dos hippies, dos punks e dos beatniks.

Eles criaram alternativas como o uso das bicicletas coletivas em Amsterdã e Barcelona, além de inspirar a legalização da maconha e da prostituição na capital holandesa. Embora muitos nem sequer tenham ouvido falar deles, o Provos foi essencial para a formação cultural no mundo contemporâneo. Se sua proposta era o rompimento com valores sociais, políticos e econômicos, hoje a produção coletiva é guiada por um componente essencial: a tecnologia.

Leia a matéria completa que fiz para a revista Continuum, do Itaú Cultural, sobre criação coletiva.