Filmes desesperançados

Ao mostrar a estética do lixo e ter como personagens figuras à parte da sociedade, o cinema marginal marcou época e deu a seus cineastas a aura de malditos (Leonardo Calvano, para Itaú Cultural)

A chanchada, produzida pela Cinédia, Vera Cruz e outros estúdios brasileiros na primeira metade do século XX, e o sucesso de Carmen Miranda em Hollywood no mesmo período criaram clichês relacionados ao cinema brasileiro difíceis de serem esquecidos. Anos depois, a década de 1960 viu surgir uma nova narrativa, diametralmente oposta à dos estúdios, que naquele momento entraram em decadência e fecharam as portas. Essa nova produção tratava de assuntos até então nunca explorados pelo cinema nacional, como a miséria, as disputas políticas e as diferenças sociais. A maior parte dos filmes era inspirada na literatura de Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, Jorge Amado e Guimarães Rosa, na arte de Candido Portinari, na música de Villa-Lobos, entre outros.

A nova estética, marcada pelo baixo custo das suas produções, foi batizada de cinema novo. Ela é em parte decorrência do forte engajamento político de jovens cineastas como Glauber Rocha (Terra em Transe), Nelson Pereira dos Santos (Vidas Secas) e Joaquim Pedro de Andrade (Macunaíma). Responsável por colocar o cinema brasileiro num patamar de primeiro mundo, o cinema novo bebeu na fonte do neo-realismo italiano e da nouvelle vague francesa. Os cineastas ousaram colocar na tela a utopia de um novo mundo, por meio do discurso socialista e nacionalista e do conteúdo “cabeça”.

Por todos os anos 1960 esses cineastas impuseram sua marca, mas viram suas forças diminuírem conforme crescia a repressão do regime militar (1964-1985). A censura interditava filmes e o mercado também não ajudava. Nesse momento, surgia uma nova safra de diretores que propunha um radicalismo extremo, como Rogério Sganzerla (O Bandido da Luz Vermelha), Júlio Bressane (Matou a Família e Foi ao Cinema), João Silvério Trevisan (Orgia) e Ozualdo Candeias (A Margem).

Aborto cinematográfico

Os cineastas dos dois movimentos tiveram muitas rixas e fizeram muitas comparações entre si. Glauber se referia a esse novo movimento, o cinema marginal, como um aborto do cinema novo. Ao mesmo tempo, Sganzerla fazia várias críticas a O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, filme de Glauber premiado em Cannes, numa entrevista ao lendário jornal O Pasquim. “Naquele momento houve uma dissidência de alguns cineastas vinculados ao cinema novo”, relata Ismail Xavier, teórico do cinema nacional. “Foi uma colisão muito rápida, típica dos movimentos estéticos. Enquanto o cinema novo tinha como grande característica a estética da fome, o marginal nos apresentou a estética do lixo, com o discurso ‘nós somos a margem, falamos sobre os excluídos, apresentamos posições desfavoráveis e filmes desesperançados’”, explica. “A Belair Filmes, produtora criada pelo Bressane e pelo Sganzerla, foi fundamental para a consolidação dessa nova linguagem”, segundo Xavier.

Embora progressistas, as preocupações dos marginais foram subverter a linguagem cinematográfica e ignorar o ativismo político direto. Afinal, surgiram durante o governo militar, ao contrário do seu “progenitor”, formado no período democrático de Juscelino Kubitschek. Também tiveram influências estrangeiras, do cinema de Jean-Luc Godard (A Chinesa e Week-end) e dos neo-expressionistas americanos, como Orson Welles, Robert Aldrich, Stanley Kubrick, além de elementos das chanchadas, da literatura de Oswald de Andrade e José Agrippino de Paula, da arte conceitual de Hélio Oiticica e da música popular, de Mário Reis à tropicália, passando pelo teatro de Zé Celso.

Enquanto o cinema novo pretendia fundar uma indústria e criar uma distribuidora estatal, os marginais partiram para o confronto fazendo filmes que ignoraram a censura e o mercado. “Apesar da existência de uma rivalidade, ambos possuem muitos pontos de contato, como os baixos orçamentos na fase inicial dos movimentos, o experimentalismo e personagens típicos”, conta Xavier. Os marginais negavam a divisão entre rural e urbano, utilizada pela esquerda para defender a identidade nacional, e em seus filmes as cidades começaram a ser cenário, a exemplo das obras ambientadas na região da Boca do Lixo paulistana. “O cinema marginal não queria ficar à margem, mas foi marginalizado pelos circuitos e pela censura (com raras exceções, entre essas O Bandido da Luz Vermelha)”, completa.

A atitude desses diretores, frente às amarras da censura da época, ao realizar seus filmes a qualquer custo é instigante. Não se poder negar a genial irreverência dessa geração de cineastas e sua importante e criativa contribuição para o cinema nacional, mesmo diante das dificuldades do mercado de exibição.

Novos marginais

Após o ressurgimento do cinema nacional, conhecido como Retomada, no início dos anos 1990, muitos nomes surgiram. Porém, para Xavier, os que mais se assemelham ao antigo cinema marginal são Sergio Bianchi (Cronicamente Inviável), Tiago Mata Machado (O Quadro de Joana) e Cláudio Assis (Amarelo Manga), que deve lançar no circuito comercial ainda neste semestre A Febre do Rato, grande vencedor do Festival de Paulínia deste ano. Na produção, o ator Irandhyr Santos encarna Zizo, poeta louco, anarquista, marginal e agitador cultural que ficou famoso no circuito underground do Recife. Ele edita o jornal Febre do Rato, um fanzine que traz poesias, colagens e desenhos, tudo feito manualmente. “É um filme cheio de poesia. Ainda assim é forte, tão visceral e mostra um mundo tão real quanto os outros que realizei”, comenta o diretor.

Sobre o rótulo de “cineasta marginal”, Cláudio Assis prefere dizer que faz cinema com arte, qualidade e respeito. “Eu busco esse caminho. Também não me considero um cineasta independente, porque dependo de captação de recursos para fazer meus filmes”, conta. “Independentemente de ser marginal ou maldito, quero que as pessoas assistam aos meus filmes. Estou mais preocupado com a qualidade, não com a bilheteria. Quero poder contribuir com a capacidade de pensar das pessoas.”

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