O reflorescer de Tulipa

Leonardo Calvano, para revista Continuum (Itaú Cultural)

O grande desafio da carreira de um músico não é gravar o primeiro disco, e sim dar continuidade ao trabalho com a mesma qualidade demonstrada anteriormente, além de superar as expectativas e não cair na mesmice. Depois de lançar o álbum Efêmera (YP Music, 2010), sucesso de crítica e público, Tulipa Ruiz opta novamente pela ousadia e mostra quanto é capaz de amadurecer e transcender em tão pouco tempo. O trânsito livre por diversas linguagens e estilos nas composições de Tudo Tanto, seu mais novo trabalho, lançado em julho deste ano, projeta luz a esse salto rumo a algo consistente. A nova fase é uma espécie de afirmação de Tulipa como artista e já a coloca como uma das maiores de sua geração, apesar de não existir nenhum tipo de peso nessa caminhada. “Tudo Tanto surgiu naturalmente e foi produzido levemente, como numa brincadeira entre amigos”, diz a cantora.

Tulipa recebeu a reportagem da CONTINUUM horas depois de voltar de uma série de shows no Reino Unido. Mesmo sob efeito do jet lag, esbanjava bom humor e nos brindava com muitas histórias deliciosas. “Toquei até numa igreja milenar e, quando soube que passaria perto da casa do Sting, resolvi parar e colocar um disco meu na caixa de correio”, conta.

EFÊMERA

Apesar de ter nascido em Santos, Tulipa Ruiz se considera mineira de coração. Foi criada em São Lourenço, sul de Minas Gerais, para onde se mudou com a mãe aos 2 anos de idade, logo após a separação dos pais. A primeira aproximação com a arte aconteceu quando ela fez um programa de rádio ao vivo na escola e, graças ao sucesso da empreitada, foi convidada a fazer um programa diário numa emissora comunitária. Para produzir as vinhetas, contava com a ajuda do irmão e sempre parceiro Gustavo Ruiz. Ainda na adolescência, a cantora entregou panfletos, fez curso para trabalhar em cassino, foi secretária numa escola de inglês e trabalhou numa loja de discos. A primeira experiência, de fato, com a música aconteceu aos 14 anos, num coral, no qual permaneceu até os 17. Ela fazia parte também de um grupo de improviso que promovia esquetes e performances pela cidade.

Passou a estudar canto lírico e por algum tempo acreditou que esse poderia ser um bom caminho a seguir. “São Lourenço é uma cidade muito pequena, tem, no máximo, 60 mil habitantes. Quando eu morava lá, só existia a faculdade de administração, então comecei a fazer aulas de canto lírico e também de italiano, para entender o que eu cantava”, relembra. “Uma hora pensei: ‘Nossa, isso que estou fazendo é surreal; preciso de algo mais prático, como uma faculdade’. Foi aí que me mudei para São Paulo e comecei a estudar multimeios na PUC, em 2000.” Na universidade, Tulipa conheceu os músicos Tatá Aeroplano e Dudu Tsuda, que se tornariam grandes amigos seus. Com Tsuda criou a banda Tugudugune, que se apresentava em festinhas e bares. Durante esse tempo, trabalhou também como arte-educadora e ilustradora. “Nessa época eu costumava fazer a arte dos flyers dos shows e das festas dos meus amigos”, conta.

TAL PAI, TAL FILHA

Grande parte da bagagem e do conhecimento musical de Tulipa vem de seu pai, Luiz Chagas, guitarrista, compositor e jornalista que tocou, entre tantos outros, com Itamar Assumpção na banda Isca de Polícia. “Tinha essa coisa de ele tocar com o Itamar e ser crítico de música em São Paulo”, fala Tulipa. “Meu pai sempre mandava discos para nós e cobria as bandas que eu mais gostava quando adolescente. Uma vez ele me ligou dizendo que ia entrevistar o Slash [ex-guitarrista dos Guns N’ Roses]. Eu fiquei enlouquecida!

”Chagas atualizava Tulipa, que cresceu ouvindo discos frescos, além, é claro, de ter acesso ao rico acervo que ele mantinha – recheado de clássicos do tropicalismo, do Clube da Esquina, entre tantos outros – e que acabou indo para São Lourenço com a cantora. “Hoje em dia ele toca com a gente. É engraçado quando me perguntam da nova geração, porque tem gente de todas as idades tocando comigo. A banda tem essa característica atemporal. Mas eu diria que meu pai é o cara mais jovem de todos. Sempre atento às novidades, antenado. É uma influência para mim e para todos os meus amigos. Um cara que transita no recorte da cena musical paulistana.”

OK, SOU CANTORA

Tulipa sempre deu canjas em apresentações de amigos e frequentou os palcos de artistas como Junio Barreto e Ortinho em casas de shows que surgiam junto à cena musical que se formava na capital paulista. Participou ainda da banda Na Roda, com músicos do Teatro Oficina, de discos do Cérebro Eletrônico, Dona Zica e Nhocuné Soul e de shows de seu pai, como backing vocal. Desde então, foram vários projetos até se consolidar como cantora e compositora. Com outros amigos também criou a banda Doutor Arnaldo para quatro apresentações na Vila Madalena, em São Paulo, cuja proposta era bem performática. “Combinei com a Fernanda [Couto – atual assessora de comunicação da artista] que quem não estivesse cantando teria de fazer tricô com guizos”, relembra rindo. “Nessa época eu ainda não me via como cantora”, enfatiza.

Por influência do cantor e amigo Thiago Pethit, finalmente Tulipa criou um perfil no MySpace [myspace.com/tuliparuiz], site utilizado por artistas, sobretudo músicos, para divulgar seus trabalhos. “Foi quando falei: ‘Ok, sou cantora’.” Surgiu então um convite para tocar no Teatro Oficina, uma oportunidade de testar suas músicas, assim como no projeto Prata da Casa, do Sesc, e na casa noturna Grazie a Dio. “Quando chegou janeiro de 2010 eu tinha de gravar. O Gustavo [Ruiz] havia fechado uma data no Auditório Ibirapuera para o lançamento do disco, mas ele nem sequer existia. Nós só tínhamos o repertório, mas chegamos à YB Music e fechamos a gravação”, conta. Resultado: gravado a toque de caixa, o disco ficou pronto a tempo, e, no dia da estreia, 150 pessoas ficaram para fora do show.

AMADURECIMENTO

Dois anos após Efêmera, Tulipa Ruiz lança Tudo Tanto, no qual assina, sozinha ou com parceiros, todas as 11 faixas. A produção é de Gustavo Ruiz e os arranjos de cordas e sopros são de Jacques Mathias. O trabalho foi selecionado no edital Natura Musical e tem apresentações confirmadas em Salvador, no Teatro Castro Alves; em São Paulo, no Auditório Ibirapuera; no Rio de Janeiro, no Circo Voador; e em Curitiba, no Sesc da Esquina.

Nesse novo disco, a cantora está ainda mais vigorosa e à vontade. Tulipa explora novos caminhos de sua extensão vocal, experimentados e aperfeiçoados no palco durante o intervalo entre os dois trabalhos. “Desta vez fizemos o caminho contrário. Antes de gravar Efêmera, havíamos feito uma série de shows. Com o Tudo Tanto, primeiro gravamos para depois pensar no palco. Estou mais à vontade, pois aconteceu justamente o que me disseram: fazer o segundo disco é muito mais divertido que o primeiro, já que não há mais aquela tensão do lançamento. Eu guardei esse conselho e isso me apaziguou”, explica.

Tulipa conta que, mesmo tendo amadurecido as músicas em shows, o período de gravação de Efê-mera foi muito curto. “A gente se apresentou com formações diferentes e cada músico contribuiu de um jeito. Saiu até uma crítica dizendo que eu fiz um disco diferente do show. Fiquei com isso na cabeça e foi aí que percebi que gravar um disco é como fazer uma fotografia da música. Depois que você fotografa, coisas acontecem, outros músicos chegam, é algo que está constantemente em processo.

”O amadurecimento da cantora é facilmente perceptível no novo trabalho. Sua voz navega com segurança tanto em tons mais graves quanto em agudos extremos, desenhando melodias sinuosas. No entanto, em termos de texto e temática, as composições não abandonaram o humor e a irreverência da produção anterior. “No Tudo Tanto eu cheguei despreocupada. Fui fazendo as músicas, sem saber ainda o nome do disco, fui sentindo tudo aos poucos; tive muito tempo para gravar voz e isso foi muito gostoso. O anterior foi muito rápido. Palco é uma coisa, estúdio é outra, e antes, para mim, era muito difícil gravar voz”, confessa. “Não sei se vou dizer isso daqui a 20 anos, mas o palco é o meu lugar. Qualquer microfonia, respiração errada, qualquer desafinada pode ser linguagem, pode trabalhar a meu favor. No estúdio não; é como se fosse um zoom na sua voz. Então qualquer respiração é diferente. É como se enxergássemos os nossos poros. Eu demorei a começar a curtir isso. Nesse disco fiquei mais relaxada, desfrutei mais do processo.

”O trabalho atual, segundo a cantora, é consequência do que aconteceu com o anterior. “Acredito que as pessoas esperam escutar coisas novas, diferentes. Se eu fizesse o Efêmera 2 ia ser mais do mesmo. Nós não vemos a hora de começar a tocar as músicas novas e ver o que acontece.” O disco inclui também uma parceria com Criolo e participação de Lulu Santos, São Paulo Underground, Daniel Ganjaman, Kassin, Rafael Castro, entre outros.

LULU NO MEU NOVO DISCO?

Tulipa e Gustavo Ruiz tinham como missão criar uma música para o novo trabalho, durante um café, antes de chegar ao ensaio. “Levamos um gravador, ficamos assoviando um tema, chegamos e perguntamos para a banda o que achavam”, conta. “A música rolou legal, ensaiamos a tarde inteira só com a melodia. A banda fez um intervalo para tomar um café e prometi que, quando eles voltassem, eu teria uma letra.”Quando começaram a ensaiar a música completa, perceberam que ela se parecia muito com as baladas de Lulu Santos e decidiram fazer o convite. “Eu o conheci durante um show que fiz em Salvador. Rolava uma empatia. Depois fui vê-lo em São Paulo e trocamos uma ideia. É impressionante como todas as músicas que ouvi ali faziam parte da minha linha do tempo afetiva”, diz. “É uma ideia que existe na cabeça e não tem a menor pretensão de acontecer”, cantarola. “Isso é lindo! Esse show mexeu muito comigo.

”Após o encontro com Lulu, Tulipa arrumou o e-mail do cantor e escreveu para ele com o assunto: Lulu no meu novo disco?. “Passou um dia e ele respondeu: boa pergunta! E se prontificou a gravar, amarradão. O processo foi muito legal, a melodia chegou nele.” No final, a música foi batizada de “Dois Cafés”, justamente por ter sido composta no intervalo entre um café e outro.

Quanto à carreira internacional, Tulipa considera uma grande responsabilidade levar nossa música para fora do país, já que existe uma pressão por parte das pessoas e da imprensa em saber tudo sobre o Brasil. A cantora, que já se apresentou nos Estados Unidos, na Europa, na Argentina e na Colômbia, para citar alguns, conta que os artistas brasileiros viraram uma espécie de pequenos embaixadores. “Temos de explicar o que é samba, o que é bossa nova, quem é Tom Jobim, até finalmente perguntarem sobre o que estamos fazendo no momento. Mas, ao mesmo tempo, é interessante a forma como a música transcende o idioma”, conclui.

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Carnaval sem fantasia

Conhecia Recife, literalmente, de outros carnavais. E lá estava ele, de novo, para mais um festejo momesco. Saiu do Aeroporto Internacional de Guararapes e, sentindo o calor de 30 graus do final da tarde e aquele cheiro forte do mangue, com mistura de esgoto, dos quais se lembrava tão bem, pegou um táxi rumo ao centro da cidade, onde ficaria hospedado durante os próximos dias. Queria chegar logo, mas o trânsito não iria ajudar – se a temperatura e o odor lhe traziam recordações de suas outras visitas à capital pernambucana, aquele tráfego lento, quase parado, lhe dava a impressão de que o avião no qual passara as últimas horas, após decolar do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, dera uma volta por aí e aterrissara no mesmo lugar.

Deu-se conta de que se repetia por lá o erro fatal de sua cidade: o pouco-caso dado ao transporte público. E o resultado era aquele trânsito infernal, digno das saídas de São Paulo nas vésperas de feriado. O atencioso motorista, então, percebendo a angústia do passageiro, arriscou um caminho alternativo pela praia de Boa Viagem. “Vocês paulistanos não veem muito o mar, né?”, disse. De fato, não – aliás são poucos os espaços urbanos coletivos, alguns parques, algumas praças. Geralmente as pessoas se encontram em bares, agora com hora para fechar e com muitíssimas restrições, que minam melancolicamente a vocação boêmia de São Paulo.

Sentiu a brisa, olhou as poucas pessoas que andavam pela orla. Pensou como é bom ver o mar de verdade… Alívio imediato.

Mas, à medida em que avançava, notava a quantidade de prédios construídos na orla. Condomínios de luxo. Edifícios comerciais igualmente luxuosos. A angústia, mais uma vez. A praia virou um enfeite para aquelas janelas e varandas, pensou. O que é a praia para os moradores desses condomínios, por exemplo, que encerram entre os seus muros um mundo de lazer? O que será do contato com a rua – e com a praia?

Todas iguais

Diante dessas transformações que se evidenciavam na paisagem da cidade, ele lembrou do filme Recife frio (2009), de Kleber Mendonça Filho. O premiado curta-metragem – de ficção, logicamente – mostra a capital pernambucana gelada e triste após misteriosas mudanças climáticas – para o azar de uns, como o francês que deixa de receber hóspedes em sua pousada à beira-mar, e a sorte de outros, como o Papai Noel profissional que já estava cansado de, metido no tradicional figurino do bom velhinho, se desidratar nos Natais tropicais do Recife.


Recife Frio, de Kleber Mendonça Filho

Não, ainda não há pinguins nas praias da cidade. Mas muita gente já se incomoda com algumas das obras que vêm sendo planejadas por lá – como o complexo empresarial, residencial e hoteleiro no Cais José Estelita (onde estão reunidos antigos galpões, estações ferroviárias e a segunda linha de trem mais antiga do Brasil).

Com questões como essa na cabeça, ele procurou, no dia seguinte à sua chegada, a urbanista Norma Lacerda. E ela não o tranquilizou: disse que estava assustada, que nunca havia vivenciado uma situação tão desastrosa em termos de ocupação do espaço urbano. Entre 2001 e 2003, durante a gestão do ex-prefeito João Paulo (PT), ela assumiu a posição de diretora-geral de urbanismo da Prefeitura do Recife. E abandonou o cargo depois que o projeto da construção das chamadas Torres Gêmeas, dois “espigões” residenciais que arranham o céu no bairro de São José – área que deveria ser preservada –, foi aprovado. “O Brasil copiou o urbanismo dos Estados Unidos de maneira equivocada”, contou. “Em Nova York, por exemplo, apenas uma área de Manhattan é verticalizada. Não me oponho a esse processo, mas sim ao jeito de que ele é feito. Não podemos enterrar o passado e deixar tudo de forma homogênea: as cidades ficariam todas iguais.”

Onde o mar bebe o Capibaribe…

Além de provocar o afastamento da até então diretora-geral de urbanismo da Prefeitura do Recife por não concordar com aquela situação, a construção dos tais arranha-céus ainda serviu como ponto de partida para o Projeto Torres Gêmeas (projetotorresgemeas.wordpress.com) – que gerou um filme coletivo focado nas políticas de expansão urbana e de desenvolvimento da cidade. Qualquer pessoa poderia dar a sua contribuição à obra enviando um material – em filme, vídeo, foto, som, desenho, texto… – que dialogasse, direta ou indiretamente, com a questão inicial.

Filme coletivo Projeto Torres Gêmeas

Sob indicação de Norma, o nosso paulistano em visita ao Recife também ficou sabendo do projeto Vurto (vurto.com.br), que, lançado em 2011 pelos documentaristas pernambucanos Marcelo Pedroso e Felipe Peres Calheiros, reúne em seu site uma série de vídeos sobre assuntos como a verticalização da cidade e a construção da Via Mangue (Concreto Armado) – corredor expresso para carros que está sendo construído na Zona Sul do Recife –, entre outros.

Concreto Armado, de Felipe Peres Calheiros

Não faltam iniciativas como essas. Num dos vídeos é abordada a construção de um shopping-center, que será o maior do Nordeste, no antigo terreno da fábrica da Bacardi, onde o rio se encontra com o mar. O projeto é do empresário João Carlos Paz Mendonça, num terreno de mais de 200 mil metros quadrados, ao lado de uma favela sobre o rio Capibaribe e um conjunto habitacional de baixa renda.

Rio-Mar Shopping, de Marcelo Pedroso

Outro vídeo mostra o depoimento de um empresário da construção civil justificando a verticalização acelerada do Recife, onde argumenta que, instintivamente, as pessoas procuram lugares altos com vistas para o mar e para o verde. Segundo ele, esse processo é natural, já que construções modernas devem substituir as antigas.

Recife MD, de Marcelo Pedroso

“Muitos artistas denunciam, fazem trabalhos com o objetivo de gerar um debate”, disse Norma. “Mas a repercussão ainda é pequena”, continuou, “principalmente por falta de mobilização da sociedade”.

Ocupe Estelita

Enquanto esse texto era escrito, um movimento de mobilização surgia nas redes sociais e ganhava as ruas do Recife. O grupo Direitos Urbanos, com quase 4,3 mil integrantes no Facebook (https://www.facebook.com/groups/233491833415070/), promoveu o #OcupeEstelita em meados de abril para proteger o Cais José Estelita, complexo que abriga antigos galpões, estações ferroviárias e a segunda linha de trem mais antiga do Brasil.

A mobilização foi criada de forma descentralizada, sem “líderes”, e defende alternativas mais inteligentes e sustentáveis para região, como a criação de parques, centros culturais e outras atividades para que sejam utilizadas por toda população, ao invés da verticalização que beneficiaria poucos, aqueles com poder aquisitivo maior. A área do cais é de extrema beleza, na Bacia do Pina, onde é possível avistar o rio e o mar e liga importantes pontos da cidade, o Recife Antigo e a Praia de Boa Viagem. Ao todo, o evento reuniu milhares de pessoas e promoveu diversas atividades.
O projeto “Novo Recife”, batizado por um grupo de empreiteiras que comprou o terreno num leilão com possíveis irregularidades em 2008 e pretende transformar o local num grande complexo vertical, está em fase de análise na prefeitura, onde, segundo os organizadores do movimento Ocupe Estelita, não existe um posicionamento firme, apesar de que qualquer intervenção esteja suspensa pelo Ministério Público até que órgãos de preservação responsáveis, como o IPHAN e FUNDARPE, se manifestem oficialmente. Caso essas instâncias sejam ultrapassadas, serão exigidos tanto pelo MP quanto pela população os relatórios de impacto ambiental e de vizinhança no processo de licenciamento.


Cineasta Cláudio Assis entrega manifesto do movimento Direitos Urbanos ao governador Eduardo Campos

Vale lembrar também que há 20 anos, quando manguezais e rios de Suape foram aterrados, o ecossistema em uma faixa litorânea do Recife e região foi destruída. Além de impactar colônias de pescadores e prejudicar o turismo, as praias se tornaram faixas de ataques de tubarões, prejudicando o uso do mar e da praia como um espaço público da população.

Novos tempos

As ilustrações apresentadas nesse texto são do artista plástico Cavani Rosas, que, já em 1986, fez uma série de gravuras em bico de pena para alertar sobre o crescimento urbano nos bairros de Casa Forte e Poço da Panela. Com Norma Lacerda, ele integrou os primeiros movimentos de preservação dos casarios recifenses. Hoje está mais ameno no discurso e apenas registra a velha arquitetura da cidade, pois acredita que não adianta ficar preocupado, já que os “novos tempos” irão, de qualquer forma, transformar tudo. “Qualquer movimentação que possa existir para abrir o debate é interessante”, comenta ele. “Mas esse dito desenvolvimento é rápido demais, e é difícil intervir de acordo com o que pensamos. O debate é profundo e a questão é poética”, completa.


O sermão poético de Daniel Lima*

Aos quase 96 anos, lúcido e sereno, padre pernambucano ganha importante prêmio e surge como um dos grandes nomes da literatura brasileira (p/ Itaú Cultural | Fotos: Beto Figueiroa)

– Eu não tenho nada o que dizer que valha a pena!

Os poucos presentes em tom de devoção discordaram prontamente do enigmático poeta-padre Daniel Lima, como num mantra:
– Tem sim, claro que tem!

Ele estava sentado numa poltrona do apartamento onde mora, no bairro da Torre, no Recife (PE), rodeado de alguns amigos e parentes. Parecia um pouco cansado, indisposto, talvez fosse o calor da tarde de quinta-feira, pós-Carnaval. Realmente ele tem muito a dizer, mas preferiu enclausurar a sua arte, nunca havia sido publicado. Saiu do ineditismo graças sua amiga e ex-aluna, professora e escritora, Luzila Gonçalves Ferreira, que lhe “roubou” quatro cadernos, reuniu-os num único livro e publicou pela Companhia Editora de Pernambuco (CEPE). O livro Poemas acabou ganhando o prêmio da Fundação Biblioteca Nacional como o melhor de 2011, categoria poesia, e notoriedade nacional. O júri escolheu sua obra por unanimidade ao desbancar nomes como Ferreira Gullar e Affonso Romano de Sant’Ana. “Ninguém o conhecia e a obra dele é considerada uma descoberta da poesia brasileira”, diz Antonio José Jardim, um dos jurados e professor de literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Amiga de Daniel Lima há 50 anos que hoje o acolhe em sua casa, a ex-bibliotecária Célia Veloso, responsável por datilografar e encadernar os manuscritos do padre, disse ser impossível calcular o número exato de obras dele. “Ele passou a vida escrevendo, muita coisa se perdeu, se estragou com o tempo”. Ela conta que, quando o amigo era mais jovem, editoras lhe propuseram publicar, mas ele sempre rejeitou. “A poesia para ele é um ato de intimidade e fica espantado quando vê a repercussão”.

Padre Daniel nasceu em Timbaúba, Zona da Mata de Pernambuco. Aos quase 96 anos, está lúcido, sereno, às vezes esboça uma pequena agressividade, mas é puro deboche. Gargalha após as piadas que solta em meio algum assunto sério que chega a engasgar. Esboça um sorriso tímido e infantil muitas vezes, mas parece que já está se acostumando com o assédio depois do sucesso tardio. Apesar das dificuldades em se comunicar, é raro ao expressar seu raciocínio e nos prega peças. Ledo engano quando imaginamos que ele se perdeu no meio de suas ideias. Usa metáforas e conclui o pensamento com clarividência. Chega parecer uma entidade, rodeado de devotos, talvez tenha errado a escolha da religião. Ele faz todo mundo se sentir especial e em estado lisérgico com suas palavras:

– Vocês vieram aqui para ouvir sermão?
Gargalha mais uma vez para despertar do transe os presentes. Seus pensamentos voam soltos e suas palavras criam asas, vão longe… Nada premeditado, tudo espontâneo. Ele escreve desde os 18 anos, época em que frequentava os seminários da sua terra natal e João Pessoa (PB). Enxerga a poesia como seu momento de intimidade, nunca gostou de se despir para qualquer um, apenas alguns poucos amigos tiveram o privilégio de conhecer sua obra antes do sucesso. Ele distribuía alguns originais com uma dedicatória “aos amigos confiáveis, para empréstimo, com espera de devolução”. Foi sempre uma espécie de lenda nas conversas dos bares cools e confrarias literárias do Recife. Nunca gostou dos intelectuais, se refere a eles como “posudos”. Em homenagem, dedicou um poema: o intelectual é um urubu/ que se julga vestido./ mas que está nu,/ com pena de pavão/ enfiada no cu.

– Daniel, quando o senhor escrevia seus poemas era para quem mesmo?
– Era pra mim. Eu escrevi para mim mesmo, já que não tinha abertura para dizer o que eu queria.
Luzilá complementa:
– As palavras foram jogadas para o ar, se pudesse sempre escrever, seria mais eficaz.
– Praticamente meu livro não é nada. Não sou importante, não quero ficar acima das pessoas. Minha obra não passou de uma obra. Estou me sentindo mais do que eu! Fico arrasado pela beleza que consegui apanhar na palavra que é tão pobre. O que escrevi me comove, passou de mim, transbordou-se do meu pensamento e da minha forma de configurar os objetos.
– E fazer poesia ajuda a passar o tempo? – pergunto.
– Ajuda, qualquer coisa ajuda. Meu negócio é viver, esse negócio de poesia é só para passar o tempo.
– Mas o senhor sente que cumpriu sua missão?
– Não penso nisso. Vou morrer de tempo, me comove a belezas das coisas.

De fato, Daniel se comove facilmente. Cantarola suavemente um trecho do poema de Casemiro de Abreu, Meus oito anos: Oh! que saudades que tenho /Da aurora da minha vida,/Da minha infância querida,/Que os anos não trazem mais! Por vezes, demonstra certo arrependimento:
– Eu fui muito do contra (e ainda é) por ter a capacidade de julgar os outros. Eu só tenho o que dizer contra o que quis dizer agora, mas aí eu vou ser um sujeito mal educado.

O padre do povo

O padre Daniel tem pelo menos 27 livros inéditos, de poesia ou assuntos referentes à ética, à estética e à política. Ele passou a vida escrevendo. Apesar de padre, nunca foi pároco, não se ligou a nenhuma ordem, apenas foi professor em Nazaré da Mata e ensinou filosofia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ligado a setores progressistas da Igreja, atuou nas Ligas Camponesas de Francisco Julião e junto aos sem terra. Trabalhou com Paulo Freire na revista Estudos Universitários e protegeu muitos estudantes na ditadura militar. Sumiu logo depois do Golpe de 1964 e foi encontrado alguns dias depois escondido num sótão com recortes de jornal espalhados pelo chão. “Fazia um estudo de caso para entender por que as Ligas não deram certo”, conta Luzilá. “Chegou a ser interrogado pela repressão, mas deu uma aula de estética aos milicos”, relembra. Foi liberado em seguida, sem sofrer nenhuma tortura ou constrangimento. É também um grande admirador de Dom Helder Câmara – arcebispo emérito de Olinda e Recife e grande defensor dos direitos humanos durante o regime militar brasileiro – com quem teve amizade.

– Gostava dele quando era ativo e agressivo, às vezes era manso demais. Faltava mais atitude. Ele quando agia era muito melhor do que quando falava. Ele deveria criticar mais a posição da Igreja (durante o Golpe). Eu protestava contra aquela situação de tolerância em relação ao nada. Sozinho, subitamente sozinho. Dói!

As ideias do padre Daniel Lima não agradavam aos setores mais conservadores da Igreja. Após ameaçar denunciar como reles plagiário o seu superior, arcebispo de Olinda e Recife, Dom Antônio de Almeida Moraes Júnior, ao qual chamava pela alcunha de “Toinho Coca-Cola”, foi afastado da paróquia de Nazaré da Mata. Apesar disso, diz não guardar mágoas da Igreja, mas sente falta de uma posição de combate, ante o renascimento e o novo tempo da história.

– A Igreja não é pioneira em nada, pena! Está toda desencaminhada é um fedor geral. Deveria assumir novas posições, é um fedor só.

Libertário, o padre Daniel Lima é mais um notável talento da poética pernambucana e brasileira que surge, aos nossos olhos, tardiamente. Era um vivedor, boêmio, apesar da espiritualidade laica, utilizava-se dos prazeres mundanos. Gostava de sair pelas ruas e varar a madrugada na companhia de amigos, regado a muito vinho, para discutir filosofia, estética e muitas outras coisas.

– Eu ainda sinto vontade de chorar. Meu lado ruim não deixa.

*Texto escrito dias antes da morte do padre poeta Daniel Lima, que deixou esse mundo no último sábado (14/04)


Saga modernista completa 90 anos

Ideais da Semana de 22 ainda ecoam com força na arte atual

TEXTO Leonardo Calvano (p/ Itaú Cultural – Continuum)

O ano era 1922. São Paulo ganhava status de metrópole ao atingir quase 1 milhão de habitantes. A aristocracia cafeeira e os imigrantes, que compunham grande parte da população na época, assistiam à expansão territorial e ao crescimento vertical da cidade, representados por edificações simbólicas como a Estação da Luz e as mansões da Avenida Paulista. O centro da cidade ostentava um ar europeu. Todo esse ambiente serviu de cenário para o primeiro movimento cultural coletivo da história brasileira: a Semana de Arte Moderna, que marcaria, em definitivo, o rumo das artes nacionais e a identidade cosmopolita e boêmia da capital.

“Naquela época, a cidade era a que apresentava as melhores condições para a realização de um evento como esse. Era próspera, recebia grande número de imigrantes europeus e se modernizava rapidamente, com a implantação de indústrias e a urbanização”, afirma a historiadora e antropóloga Letícia Viana. Era também o ambiente perfeito para propostas artísticas transgressoras, diferentemente do Rio de Janeiro – outro polo artístico, impregnado pelas ideias da Escola Nacional de Belas-Artes –, que, por muitos anos depois da Semana, ainda defenderia o academicismo. “Claro que existiam no Rio artistas dispostos a renovar, mas o ambiente não lhes era propício, sendo mais fácil aderir a um movimento que partisse da capital paulista”, completa.

Organizada por Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Manuel Bandeira, Tarsila do Amaral, Heitor Villa-Lobos e muitos outros, a Semana, realizada no Teatro Municipal de São Paulo entre os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922, marcou o surgimento do modernismo brasileiro, além de ser o ponto de encontro das várias tendências que vinham se firmando mundialmente desde a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). O evento marcou também as comemorações do primeiro centenário da independência do Brasil. Reuniu cerca de cem obras e compreendeu três sessões literomusicais noturnas. Consolidou grupos e ideias, que passaram a ter espaço cativo em livros, revistas e manifestos. As ideias que disseminou foram legitimadas por completo após alguns anos, quando chegariam a outros estados brasileiros: em Minas Gerais, foram acolhidas pelos poetas Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Emílio Moura, Abgar Renault e João Alphonsus; no Rio Grande do Sul, por Mário Quintana, Augusto Meyer, Pedro Vergara e Guilhermino César, também poetas; e, no Nordeste, nas obras de José Américo de Almeida, Jorge de Lima e outros.

De acordo com a historiadora e crítica de arte Aracy Amaral, “a Semana de Arte Moderna é um marco por ter sido um evento preparado, e que foi fundamental para os artistas, mesmo se considerarmos que os trabalhos expostos não são hoje, para nós, revolucionários. Mas significaram um desejo de rompimento”. Aracy observa que o movimento trouxe duas vertentes bastante diversas: uma que sinalizava para os valores locais, os ritmos musicais e as tradições populares. Nesse ponto, segundo a historiadora, Mário de Andrade foi um grande agente. A outra vertente foi a das artes plásticas baseadas em temas que remetem às raízes brasileiras. “É nesse contexto que a pintura Pau-Brasil, de Tarsila do Amaral, emerge com sabor e força, assim como as obras de Di Cavalcanti e Cicero Dias, antes de ir para Paris.”

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Filmes desesperançados

Ao mostrar a estética do lixo e ter como personagens figuras à parte da sociedade, o cinema marginal marcou época e deu a seus cineastas a aura de malditos (Leonardo Calvano, para Itaú Cultural)

A chanchada, produzida pela Cinédia, Vera Cruz e outros estúdios brasileiros na primeira metade do século XX, e o sucesso de Carmen Miranda em Hollywood no mesmo período criaram clichês relacionados ao cinema brasileiro difíceis de serem esquecidos. Anos depois, a década de 1960 viu surgir uma nova narrativa, diametralmente oposta à dos estúdios, que naquele momento entraram em decadência e fecharam as portas. Essa nova produção tratava de assuntos até então nunca explorados pelo cinema nacional, como a miséria, as disputas políticas e as diferenças sociais. A maior parte dos filmes era inspirada na literatura de Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, Jorge Amado e Guimarães Rosa, na arte de Candido Portinari, na música de Villa-Lobos, entre outros.

A nova estética, marcada pelo baixo custo das suas produções, foi batizada de cinema novo. Ela é em parte decorrência do forte engajamento político de jovens cineastas como Glauber Rocha (Terra em Transe), Nelson Pereira dos Santos (Vidas Secas) e Joaquim Pedro de Andrade (Macunaíma). Responsável por colocar o cinema brasileiro num patamar de primeiro mundo, o cinema novo bebeu na fonte do neo-realismo italiano e da nouvelle vague francesa. Os cineastas ousaram colocar na tela a utopia de um novo mundo, por meio do discurso socialista e nacionalista e do conteúdo “cabeça”.

Por todos os anos 1960 esses cineastas impuseram sua marca, mas viram suas forças diminuírem conforme crescia a repressão do regime militar (1964-1985). A censura interditava filmes e o mercado também não ajudava. Nesse momento, surgia uma nova safra de diretores que propunha um radicalismo extremo, como Rogério Sganzerla (O Bandido da Luz Vermelha), Júlio Bressane (Matou a Família e Foi ao Cinema), João Silvério Trevisan (Orgia) e Ozualdo Candeias (A Margem).

Aborto cinematográfico

Os cineastas dos dois movimentos tiveram muitas rixas e fizeram muitas comparações entre si. Glauber se referia a esse novo movimento, o cinema marginal, como um aborto do cinema novo. Ao mesmo tempo, Sganzerla fazia várias críticas a O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, filme de Glauber premiado em Cannes, numa entrevista ao lendário jornal O Pasquim. “Naquele momento houve uma dissidência de alguns cineastas vinculados ao cinema novo”, relata Ismail Xavier, teórico do cinema nacional. “Foi uma colisão muito rápida, típica dos movimentos estéticos. Enquanto o cinema novo tinha como grande característica a estética da fome, o marginal nos apresentou a estética do lixo, com o discurso ‘nós somos a margem, falamos sobre os excluídos, apresentamos posições desfavoráveis e filmes desesperançados’”, explica. “A Belair Filmes, produtora criada pelo Bressane e pelo Sganzerla, foi fundamental para a consolidação dessa nova linguagem”, segundo Xavier.

Embora progressistas, as preocupações dos marginais foram subverter a linguagem cinematográfica e ignorar o ativismo político direto. Afinal, surgiram durante o governo militar, ao contrário do seu “progenitor”, formado no período democrático de Juscelino Kubitschek. Também tiveram influências estrangeiras, do cinema de Jean-Luc Godard (A Chinesa e Week-end) e dos neo-expressionistas americanos, como Orson Welles, Robert Aldrich, Stanley Kubrick, além de elementos das chanchadas, da literatura de Oswald de Andrade e José Agrippino de Paula, da arte conceitual de Hélio Oiticica e da música popular, de Mário Reis à tropicália, passando pelo teatro de Zé Celso.

Enquanto o cinema novo pretendia fundar uma indústria e criar uma distribuidora estatal, os marginais partiram para o confronto fazendo filmes que ignoraram a censura e o mercado. “Apesar da existência de uma rivalidade, ambos possuem muitos pontos de contato, como os baixos orçamentos na fase inicial dos movimentos, o experimentalismo e personagens típicos”, conta Xavier. Os marginais negavam a divisão entre rural e urbano, utilizada pela esquerda para defender a identidade nacional, e em seus filmes as cidades começaram a ser cenário, a exemplo das obras ambientadas na região da Boca do Lixo paulistana. “O cinema marginal não queria ficar à margem, mas foi marginalizado pelos circuitos e pela censura (com raras exceções, entre essas O Bandido da Luz Vermelha)”, completa.

A atitude desses diretores, frente às amarras da censura da época, ao realizar seus filmes a qualquer custo é instigante. Não se poder negar a genial irreverência dessa geração de cineastas e sua importante e criativa contribuição para o cinema nacional, mesmo diante das dificuldades do mercado de exibição.

Novos marginais

Após o ressurgimento do cinema nacional, conhecido como Retomada, no início dos anos 1990, muitos nomes surgiram. Porém, para Xavier, os que mais se assemelham ao antigo cinema marginal são Sergio Bianchi (Cronicamente Inviável), Tiago Mata Machado (O Quadro de Joana) e Cláudio Assis (Amarelo Manga), que deve lançar no circuito comercial ainda neste semestre A Febre do Rato, grande vencedor do Festival de Paulínia deste ano. Na produção, o ator Irandhyr Santos encarna Zizo, poeta louco, anarquista, marginal e agitador cultural que ficou famoso no circuito underground do Recife. Ele edita o jornal Febre do Rato, um fanzine que traz poesias, colagens e desenhos, tudo feito manualmente. “É um filme cheio de poesia. Ainda assim é forte, tão visceral e mostra um mundo tão real quanto os outros que realizei”, comenta o diretor.

Sobre o rótulo de “cineasta marginal”, Cláudio Assis prefere dizer que faz cinema com arte, qualidade e respeito. “Eu busco esse caminho. Também não me considero um cineasta independente, porque dependo de captação de recursos para fazer meus filmes”, conta. “Independentemente de ser marginal ou maldito, quero que as pessoas assistam aos meus filmes. Estou mais preocupado com a qualidade, não com a bilheteria. Quero poder contribuir com a capacidade de pensar das pessoas.”


Anarquia Futebol Clube

Time de futebol amador desmonta hierarquia, escala jogadores como técnicos ou dirigentes, e faz o esporte voltar às origens lúdicas na várzea de SP. Por Leonardo Calvano. Foto: Raphael Sanz (para Carta Capital)

Sábado à tarde em São Paulo. O cenário: o campo de futebol amador do Baruel, tradicional time de várzea da Casa Verde, Zona Norte, um dos poucos que ainda resistem à especulação imobiliária da capital paulista. Em campo, o Autônomos FC enfrentava o EC Juva, em duelo de preparação para os Jogos da Cidade, evento esportivo organizado pela prefeitura.

À beira do gramado de terra batida, um dos integrantes do Autônomos vestia uma camisa da seleção argentina e tentava aos berros orientar os companheiros sobre a marcação. Ao contrário do que pode parecer, o sujeito com a camisa argentina não era o técnico, pois no Autônomos FC não existe técnico nem capitão. O time é administrado de forma coletiva e sem divisões hierárquicas; todos opinam e decidem em conjunto o que fazer em campo. Jovens cabeludos, tatuados e usando piercing e alargadores, alguns franzinos e outros fora de forma, vestiam uniforme preto, branco e vermelho, com o escudo que remetia à letra “A”, símbolo do anarquismo. São músicos, jornalistas, ativistas, professores e profissionais de diversas áreas, formados em universidades conceituadas ou não.

A mistura naquele dia não deu certo: o time perdeu para o EC Juve por 3 a 0. No entanto, o resultado não é objetivo final, e sim resgatar a paixão pelo futebol de maneira mais democrática possível. Assim surgiu o Autônomos FC durante o Carnaval de 2006, em um encontro anual em Belo Horizonte. Danilo Cajazeira, o Mandioca, que ajudava a organizar em São Paulo a Copa Autonomia (torneio de futsal sem juízes e aberto a todos), e Maurício Noznica, integrante do Ativismo ABC (coletivo que defende a autogestão em todas as esferas) pensaram em montar um time após um debate sobre torcida uniformizada e política. Convidaram times da Copa Autonomia para fundar uma única equipe.

Hoje, são mais de 75 membros divididos em dois times de futebol de campo masculino (A e B) e uma equipe de futsal feminino. “Queríamos antes de tudo nos divertir, independentemente de ter técnica, idade ou habilidade. E de fazer tudo de forma horizontal, sem ninguém mandando em ninguém. Nunca fomos um time anarquista em termos de posicionamento político, mas estes valores sempre foram os condutores da organização interna do time”, conta Cajazeira. Além de futebol, o Autônomos também promove palestras, debates, música, além de intercâmbio político, cultural e social.

Quem faz o quê e quando?

A divisão das funções dos integrantes da equipe está ligada às possibilidades de cada um, sejam elas financeiras, de tempo ou disposição. Cajazeira organiza o grupo fora das quatro linhas. “Ele daria uma aula para qualquer cartola profissional por aí”, conta Gabriel Brito, um dos integrantes. “Arrecadamos dinheiro internamente, cada um doa o que pode. Vendemos material do time. Também fazemos festas, rifas e todas as coisas que todo time de várzea está cansado de fazer para existir num país em que o suporte para o esporte amador é próximo de zero”, explica Brito.

“O Maurício procura organizar dentro de campo, mas também é preciso alguém de fora. Então o técnico acaba sendo alguém que está contundido ou na reserva”. Essa função, segundo ele, é encarada da mesma forma que a de lateral-direito ou de ponta-esquerda. “O técnico não manda, ele organiza e sempre escuta todo mundo”, afirma. “Existe muito time de várzea bom que não tem técnico. O problema é que no profissional tiraram a autonomia do jogador e o tratam como criança”. Também não existe uma seleção de jogadores, é só chegar e ir se adaptando ao time. “Tem gente que antes do Auto nunca tinha jogado futebol de campo na vida”.

Além de promover atividades ligadas ao futebol, eles participam do Movimento pelo Passe Livre (MPL) e organizam eventos junto à Frente de Luta por Moradia (MFL) e à Associação Nacional dos Torcedores. “Também temos planos de começar um time com crianças de rua e recentemente fizemos uma campanha de arrecadação para compra e distribuição de cobertores aos moradores de rua”, completa.

Uma sede social e cultural

O Autônomos FC recentemente criou um novo espaço que servirá também com sede do coletivo. A Casa Mafalda – nome dado em homenagem a personagem do cartunista argentino Quino e uma menção ao bairro Chácara Mafalda, que abrigava o primeiro campo do time – funciona no Estúdio Fábrica Lapa, Zona Oeste e pretende ir além do futebol. “Pretendemos organizar tudo o que for de acordo com nossos princípios. Festas, debates, palestras, exposições e oficinas. Queremos um lugar de convivência, sem individualismo e sem aquela relação comercial como na maioria dos espaços”. Além disso, atividades com a comunidade já estão sendo planejadas. “Já recebemos propostas de aulas de teatro e yoga”, completa Cajazeira.

O grupo se mobilizou nas redes sociais para arrecadar a verba necessária para a construção da sede e do espaço cultural. Vale ressaltar que, enquanto muitos discutem a transparência das contas do dinheiro usado pela organização da Copa do Mundo de 2014, em seu site o grupo declara todos os valores que entram e saem.

Experiência no exterior

No ano passado, o Autonômos FC viveu sua primeira experiência internacional na Copa do Mundo Alternativa, em Yorkshire, Inglaterra, após convite dos Easton Cowboys&Cowgirls, time fundado em 1992 dentro do mesmo conceito. “Eles viraram nossos parceiros. Já jogaram em Chiapas, no México, com os Zapatistas, na Palestina e na Índia, e fazem parte de uma extensa rede de futebol alternativo, muito comum na Europa e nos Estados Unidos”, conta Cajazeira. “Esse campeonato funciona dentro do princípio ‘faça você mesmo’, sem patrocínios e nem empresas terceirizadas. Os próprios times organizam a tabela, um faz a arbitragem do outro e, durante as noites tem festa, música e muito bate-papo.”

Para muitos integrantes que vieram do movimento punk e anarquista, a experiência foi ainda mais rica, já que eles se hospedaram em squats ingleses, as famosas casas ocupadas. “Passamos 10 dias em um. Aprendemos demais sobre organização, enfrentamento com o estado e a polícia, e sobre internacionalismo. Trouxemos muitas coisas para nossas práticas, tanto dentro como fora de campo”.

O próximo compromisso no exterior será em Jesús Maria, na Argentina, em 2012. A Copa América Alternativa surgiu da parceria com o time local Clube Atlético Social y Deportivo Ernesto Che Guevara, fundado há quatro anos com as mesmas ideias e ensinamentos socialistas propagados pelo líder revolucionário, que viveu próximo de lá, em Córdoba. “A ideia é integrar através do futebol crianças e jovens de todas as classes sociais para ajudar na formação delas como pessoas, reforçando valores pregados por Che, como solidariedade e dignidade”, contou Mónica Nielsen, presidente do clube de Córdoba, uma das sedes da Copa América.

Conheça o site da equipe: http://www.autonomosfc.com.br


Pronta para criar

Centro Cultural Tacheles, ocupação artística em antigo bairro da Berlim Oriental

Mais do que um espaço de criação e pesquisa, as casas artísticas são um ponto de encontro das mais variadas áreas para produção, troca de experiência, interação e coletividade. Provavelmente a mais conhecida delas e uma das percussoras desse movimento foi a Factory, ateliê e casa do artista pop norte-americano Andy Warhol, criada em meados dos anos 1960, em Nova York. Artistas, curiosos e todo tipo de louco povoavam o espaço. Em comum, tinham uma atitude de provocação e aversão aos padrões e convenções. Tudo girava em torno de Warhol e nada saía daquelas paredes sem sua aprovação.

A Factory era uma versão ultramoderna de um ateliê renascentista, onde artistas aprendiam com o mestre. Muitos dos trabalhos de Warhol foram executados pelos residentes, como os retratos de Judy Garland, Mick Jagger, Muhammad Ali e Pelé. Warhol fotografava com a sua inseparável Polaroid para depois trabalhar os retratos. O espaço servia também para integrar. Foi lá que os membros da banda The Velvet Underground, de Lou Reed, conheceram um de seus grandes ícones, a cantora alemã Nico.

A Factory inspirou outros centros de criação mundo afora, como a Fabrica [fabrica.it], o laboratório de ideias do grupo Benetton, em Treviso (Itália). A escola experimental incentiva pesquisas e o desenvolvimento de jovens artistas, colocando-os em contato com grandes nomes das artes. Não há professores, nem aulas, mas há prazo de entrega e muito trabalho.

O espaço funciona numa antiga vila, do século XVIII. O nome foi inspirado na Factory de Warhol. Os jovens moram de graça, almoçam na Fabrica, ganham mesada e passagem de ida e volta para a terra natal. A ideia é que nada impeça a criatividade de correr solta. Para ser escolhido, é necessário mandar um portfólio.

Leia a matéria completa que fiz para Revista Continuum, do Itaú Cultural

"Mao" de Andy Warhol na Gallery's Museum für Gegenwart, Berlim (arquivo pessoal)